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domingo, 2 de junho de 2013

Contos da borboletinha – a estrela

Quando consegui me enrolar numa quantidade suficiente de folhinhas pra me esquentar, adormeci! Quando acordei, havia esquecido onde eu estava. Parecia que estava ali a anos! Só tinha um buraquinho acima da minha cabeça que me deixava ver muito pouco das coisas do lado de fora. Desesperei-me porque não conseguia me mexer. Não conseguia me soltar! Comecei a gritar e chorar! Meus pais correram ao meu encontro e pediram pra eu me acalmar. Explicaram que eu estava vivendo a primeira fase da minha metamorfose, que eu tinha que ter calma e não ficar nervosa. Mas que agora eu não poderia sair dali antes de todo o ciclo se cumprir. Que eu já não era mais aquela garotinha lagarta. Agora eu era uma nova larvinha no meu casulo. No primeiro momento, gostei da idéia. Fatos são fatos. Se aquilo fazia parte da minha natureza, cabia a mim interpretar se cada novo passo do ciclo era relevante ou pouco significativo, permanente ou passageiro. Eu poderia fazer daquele casulo o meu novo mundo, longe de outros seres pois assim eu não iria sofrer pela saudade,longe das sujeiras do chão e da maldade dos bichos. Mas, quando a primeira noite chegou, minha mamãe precisou dormir do lado do meu casulo. E nos dias seguintes, eu comecei a sentir medo do que poderia me atingir sem eu poder ver ou me mexer. Queria meus pais sempre comigo, mas eles não podiam, tinham que trabalhar. Minha Irma havia se casado e resolvido partir em viagem para um jardim só deles. Meus amigos ainda não sabiam da minha situação e eu não tinha como avisar. Nem uma bola ou livro eu tinha pra me distrair. Minha mãe falou que algo estranho aconteceu comigo. O normal seria eu passar minha fase do casulo hibernando, e não deveria ter acordado. Combinamos que ela ficaria sempre aparecendo pra ficar comigo quando tivesse folga, mas isso era tão raro. Comecei a me entristecer e me sentir mais estranha. Até que mais uma noite chegou.Um brilho forte invadiu o meu casulo e não me deixava dormir.
- Oi? Alguém pode apagar a luz, por favor?
- Você está maluco? Meu brilho é perfeito demais para ser apagado!
- Me desculpe, senhora estrela. É que eu gostaria de dormir um pouco.
- Tudo bem, vou dar uma volta. Boa noite pequeno casulo.
A lagartinha quis explicar que ela não era aquele casulo verde que a estrela conseguia ver, mas pensou melhor. O casulo agora fazia sim parte dela.
- Certo... Boa noite Dona Estrela.
O dia surgiu. Bem cedo meus pais me acordaram com uma linda canção e ficaram entusiasmados por ouvirem a minha voz saindo do casulo e acompanhando no cântico.
- Menina! Vou te levar comigo (8)
A novidade do meu casulo se espalhou para todos os meus amigos da escola que felizes, vieram me visitar ao longo dos dias. E em algumas noites, a estrela vinha me visitar também. Apesar de ainda me sentir fraca e indefesa, já não estava solitária. Chorava as vezes por não ser como os outros insetos que se modificavam sem precisarem estar presos e me sentia cada vez mais raiva por pensar que eu era feia e estranha.
- Mas você não é estranha! – exclamou a estrela.
- Dona estrela, a senhora não entende... – triste, falei.
- Primeiro, não me chame mais de “dona” que eu não sou dona de ninguém, nem de “senhora” pois eu sou uma das mais jovens estrelas da minha constelação. Hum! Vejam só, eu tão linda e novinha assim sendo chamada de seonhora ou dona. – Depois de murmurar um pouco, a estrelinha continuou. – Mas, o seu caso é o seguinte, cada ser tem suas formas e seu próprio caminho de desenvolvimento e até mesmo seu próprio jeito de ver as coisas, as corujas que a digam! O que eu quero dizer é que você não é estranha. Você só é você! Única! Do jeito que Deus quis. Cada ser passa por sua formação de maneira singular, inigualável! Ou você acha que qualquer um pode brilhar assim, como mói? – Questionou-me com ar de superioridade.
- Desculpe-me senhoriiiita estrelinha, seu brilho PE único sim, novinha! Obrigada por conversar comigo. Agora eu sei que todo mundo passa por transformações, visíveis ou não, e que o melhor é aceitar procurando não achar estranho, e sim, maravilhosamente diferente!
- Ser do mundo não significa apenas se adaptar a ele, mas ter vontade de transformá-lo para melhor também com as características que só você carrega.
- Eu não consigo ver como ficar presa aqui dentro pode ser um método eficiente para a minha metamorfose. Deus não podia ter criado um método mais fácil? – Reclamei sem perceber.
- Somos seres capazes de promover mudança também e as vezes, nos preocupamos tanto com nossa aparência que não conseguimos perceber que ocorrem mudanças dentro da gente também. Você já pensou nisso? Imagine quantas lições e experiências você está vivendo aí!
- Que experiências, estrelinhas? Eu to presa! Eu não sou so esse casulo verde que você vê. Sou por dentro algo que mal pode se mexer. Não consigo descansar como eu preciso. Nunca serei uma borboleta como minha irmã... – e terminei de falar chorando.
A estrelinha só tentava ajudar a eu me sentir melhor, mas eu já estava cansada demais de chorar e adormeci. No novo dia, o mau humor me pegou e eu não quis falar com ninguém. A noite, a estrelinha pareceu adivinhar e não foi me visitar. Dormi sentindo falta de muitos amigos. Minha mãe veio se deitar perto do casulo para tentar me deixar melhor. Quando amanheceu, eu senti uma enoooorme vontade de andar por aih, mesmo no chão sujo e jogar bola. Mas o dia se passou comigo praticamente estática no casulo. Quando a noite chegou:

- A minha mãe explicou que você é uma futura borboleta, não é? Eu já entendi tudo. Metamorfose é... como eu posso explicar... Olha, ninguém pode viver sua vida por você.... Você precisa ser forte e acreditar que só depende de você. Você vai sair daí logo logo e vai voar bem pertinho de mim. - Disse a estrela.
- Eu espero - Respondeu a lagartinha de maneira mais conformada.
- Acredite! Você vai ser uma borboleta tão radiante dependendo da sua maneira de se preparar para esse feito! - Finalizou a estrelinha.
- Sabe - com um certo receio a lagartinha continuou - Ontem, você não veio conversar comigo, certo? Mas até que foi bom... Pude ter certeza de uma coisa.
- Foi bom??? - se espantou a estrelinha - Que certeza você teve?
- É porque ontem uma estrela passou por aqui e eu pensei por um breve momento que era você. Senti uma alegria tão grande daquelas que não se consegue medir. Mas percebi no minuto seguinte que aquele brilho não era o seu... E a alegria se converteu em tristeza.
- Ainda não entendi. Isso foi bom? - INdagou a estrela confusa.
- Claro! Eu pude perceber que você me cativou! Não vê? Você é minha amiga! Sua existência já é parte dos meus sentimentos. Você é mais que uma simples estrela para mim agora. É a minha estrela amiga.
- Puxa! Somos amigas mesmo? Você gosta de mim? Porque eu já gosto muito de você, mesmo não podendo te ver por inteira com meus olhos, já te vejo muito com meu coração.
A lagartinha sorriu desejando que sua amiga estrela pudesse vê-la sorrir e se despediu para mais uma manhã que se anunciava.

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