Entre toda a particularidade da comunidade que Deus me enviou, havia dois participantes que portavam uma deficiência mental. Eram irmãos, mas os níveis das deficiências eram diferentes. O mais velho tinha 21 anos e agia como uma criança de 3 anos, tinha dificuldade de se locomover e mexer os braços. Repetia tudo o que falávamos, não conseguia entender as regras, mas era carinhoso e super participativo. O outro, tinha 12 anos mais agia como uma criança de nove anos. Tinha dificuldade na fala, sabia exatamente as regras e mas tinha níveis de estresse facilmente demonstrados e era muito sujeito a descumprir as normas e mentir para seu beneficio.
Eu já tinha estudado uma disciplina chamada Inclusiva, que me ajudou muito a lidar com as situações que os envolvia. Eles participavam das turmas das crianças e minhas aulas começaram a ser preparadas pensando também nas características limitantes deles. Com o d 12 anos, percebi que só precisava trabalhar conceitos de cooperação e trabalho em grupo. Além de propiciar momentos de diálogos. Já com o de 21 anos, encontrei dificuldades iniciais, porque as outras crianças não o queriam no time delas na hora dos jogos e o chamavam de "doido". Durante os momentos devocionais, os próprios momentos de insultos e também nas horas do lanche, eu estimulava a discussão sobre diferenças entre todas as pessoas e um dos alunos chegou a uma conclusão que todos concordaram e que contribuiu muito para a inclusão do jovem de 21 anos. Ele disse, "professora. Se todos nós temos diferenças entre todos e limites só nossos, todos nós temos um pouco de doideira dentro da gente né? Não posso nem julgá-lo que amanhã posso tá agindo mais doido que ele!". A gargalhada correu solta entre eles, mas isso ajudou o entrosamento e o respeito entre todos. No campeonato que realizei de despedida, o time que tinha o jovem de 21 anos na equipe foi para a final. Um dos jogadores dessa equipe foi expulso e o jovem de 21 anos entrou em seu lugar. A partida foi para os pênaltis. Com arbitragem de fora da comunidade, eu não realizei influência em nenhum dos jogos. As penalidades deveriam ser três de cada time, se houvesse empate, era mata- mata a cada batida! Todos do time adversário haviam batido. Estavam no mata- mata. Uma menina do time adversário havia feito e um menino do time dele também. Depois, um menino da equipe adversária havia perdido a cobrança e só faltava o jovem de 21 anos bater. Todos da equipe dele correram em minha direção pedindo para eu escolher outro pra bater. Eles imploravam e eu pedi pra falar sozinha com o capitão do time. Ele chegou cheio de argumentos vazios, implorando pela mudança de cobrador. Eu falei que ele tinha dois minutos pra se reunir com o time dele e voltar com um argumento aceitável para eu fazer essa mudança de cobrador. Se eles conseguissem, eu mudava, se não, tinha que ser ele. Eles foram, o tempo passou. Quando ele voltou, questionei:
- E aí? Por que ele não pode cobrar?
- Por que ele é doente da cabeça!
- Mas se chuta com os pés. E aí?
- Ele vai errar!
- Qualquer um está sujeito a errar. E aí?
- Ele nem sabe o que está fazendo!
- Ele sabe sim. Vem aqui. Olha o rosto de alegria dele em estar brincando com vocês. Você quer realmente tirar essa alegria dele, essa chance que ninguém sabe quando ele vai ter, só pra vocês vencerem o jogo?
Ele ficou pensando. Calado. Depois abaixou a cabeça e disse:
- Tudo bem. Ele deve cobrar.
O arbitro ajeitou a bola. O capitão do time foi lá no jovem e apontou pra ele a direção que ele tinha que chutar e mandou ele chutar o mais forte possível. Meu coração disparava eletricamente rápido pensando no que aconteceria se ele perdesse esse pênalti, como eu deveria agir e o que falar. Mas... A bola saiu como um jato dos pés do menino! Todos correram na direção dele pulando em cima dele, a equipe dele e toda a torcida que queria vê-lo acertando. Foi uma alegria das grandes!!! Fizeram uma festa! Era sorrisos para todos os lados! E aí, na entrega das medalhas, me aproximei do pequeno capitão e falei:
- E aí?
Ele sorriu envergonhadamente contente.
- O que você aprendeu hoje?
- Que não posso subestimar meus adversários e muitos menos, meus companheiros.
Dei um abraço forte nele e fomos lanchar.
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