Eu soube desta vaga através do meu amigo e professor de capoeira que também me deu total apoio em toda a minha caminhada pelo Caminhos do Sol. As crianças eram as mais empolgadas, mais presentes e pontuais. Apesar de muitas demonstrarem ter uma vida difícil e que muitas vezes cobrava delas uma posição de adulto trabalhando e cuidando dos irmãos mais novos, na quadra elas pareciam esquecer disso e se tornavam também, mais carinhosas e comunicativas. Inicialmente, as oficinas aconteciam na quadra aberta da comunidade, realizavamos uma "boa" caminhada da instituição até lá e era preciso levar garrafões de água, copos, coletes, bolas, cones e todos os materiais necessários. Mas os participantes sempre me ajudavam a carregar. O controle da entrada e da saída da quadra era praticamente impossível. Mas a comunidade como um todo demonstrou respeito e valorização pelo projeto. Sempre iniciava minhas aulas com um momento devocional como era de costume da OnG e eu tanto amava. Um momento intimo com Deus antes das atividades sempre se demonstrou fundamental para aumentar o clima de sociabilidade, trabalho em grupo e descontração. Além de me possibilitar conhecê-los melhor a cada encontro. Depois, fazia meu aquecimento, alongamento, atividades pré-esportivas ou já técnicas, físicas ou táticas e por fim, realizávamos um momento de lanche no pátil da instituição.Os adolescentes tomavam atitudes diversas. Existia aqueles tímidos que esperavam ser convidados pra entrar nas atividades, aqueles que se sentiam donos da área e nem pediam licença e queriam sempre mandar, aqueles que queriam me agradar pra ganhar tratamento especial e aqueles que estavam alí porque viram a quadra aberta e deu vontade de jogar bola. As namoradas dos adolescentes ficavam sabendo da nova treinadora e vinham assistir ao treino como se aparecessem só para marcar território, para demonstrar suas posses e "quem mandava na área". Eu realmente só percebi essas linguagens corporais depois que as conquistei. Sou uma apaixonada por futebol e gosto de interagir com meus alunos. Elas, assim entendi, ao me ver brincando com a bola, fazendo firulas e às vezes, até jogando com os meninos, sentiram vontade de participar e me convidaram a montar um time feminino. Eu me senti inteiramente feliz! Havia quebrado naquelas meninas e naqueles meninos a visão de que futebol só é para homens, os possibilitado momentos de lazer e fulga de suas vidas adultas tão precocimente alcançadas e estava levando momentos com Deus para eles. Cada dia que nao tinha o projeto, eu era questionada pelos motivos por olhinhos desanimados pela noticia. Isso me fazia ver o quanto era agradável para eles ter este espaço. Eu era muito questionada sobre ser casada, ter filhos, idade, namoro... E percebi que também consegui trabalhar com eles discussões críticas sobre a diferença de gênero e sexualidade. Alguns pais vinham até o projeto se certificar se o que suas filhas diziam era verdade. Se era mesmo uma mulher que estava ensinando futebol. E a permanência destas em minhas aulas só tornava o meu trabalho mais gratificante.
A realidade não era o monstro que todos de fora daquela comunidade criavam. Conheci pessoas maravilhosas, de corações lindos e valentes apesar de machucados, pessoas de fé, amantes do nosso Senhor Deus e batalhadoras. Visitei muitas famílias para fazer renovação dos dados dos participantes das oficinas e pude conhecer um pouco mais de suas condições. Eram de classe média a baixa. Situações pessoais complicadas familiarmente. Mas nunca levei uma "porta na cara". Sempre fui recebida com carinho e admiração. Era como se fosse uma pequena forma de agradecer o bem que a OnG como toda trazia para suas famílias. Mas também não era uma comunidade com muita visibilidade politica trabalhada. Demorei um pouco pra identificar muitos pontos que precisavam de mudanças por nunca ter tido vivencia com tais pontos. As drogas, a violência, a gravidez precoce e muitos outros pontos negativos se tornaram fáceis de eu identificar depois de um período maior por lá. Jovens apareciam com olhos vermelhos, às vezes bêbados ou muito irritados e com atitudes desrespeitosas. Meninas de 14 anos com suspeitas de gravidez ou mesmo anorexia pelo contato com as drogas. Crianças que eram desligadas do projeto porque precisavam trabalhar ou ajudar os pais em casa, ou porque tinham perdido algum ente querido ou por separação dos pais e muitos outros pontos. A presença de Deus ali estava sendo necessária cada vez mais e mais e projetos como este estavam sempre surgindo, mas algumas vezes desaparecendo por falta de apoio financeiro e visibilidade social.
Apesar de saber da importância das vivências em campeonatos, meu foco era mais educacional. Era algo que estava gritante ali: educação! Em todos os sentidos e espaços que a educação pode chegar. Percebi que o público era mais de pele negra e por eu ser branquinha, olhares iniciais de desconfiança também eram lançados. Fui convidada a atuar num campeonato de futebol de areia da comunidade. Alguns jogos sofreram mudanças de data por motivo de conflitos entre traficantes. E apesar de ter me empolgado com a participação de muitos jogadores animados, raçudos e determinados a jogar. Vi atuações magnificas de um futebol bonito, onde sem perceberem, os jogadores demonstrando muitos significados em suas práticas. Os times eram todos da comunidade local e comunidades vizinhas. Existia técnicos e torcidas presente! Foi uma mobilização social organizada por uma das educadoras sociais da OnG que eu admiro muito e que me ajudou a crescer mais ainda como pessoas e profissional. Também vi em muitos jogos, alguns expectadores bem magros e sujos cheirando cola ou bêbados. Canteiros repletos de lixo e descuidos. O que após o campeonato desapareceu. Essas pessoas foram convidadas a assistir aos jogos de maneira participativa com comentários, mas se desligando de seus objetos de consumo e essas áreas foram ecologicamente recuperadas.
Em um dos jogos da semi- final passei por uma situação engraçada. Numa de minhas aulas, uma das crianças se chateou porque marquei uma falta contra o time dela e veio gritando que eu não sabia apitar. Eu ofereci o apito para ele me ensinar. Ele respondeu que sabia apitar melhor que eu mas queria jogar. Respondi que se eu não sabia apitar, o jogo só poderia reiniciar quando ele me ensinasse. Ele, ainda de forma agressiva, disse que mulher não entendia mesmo de futebol. Eu me chateei com o comentário e falei que ele só voltaria para o jogo se me ensinasse a apitar dentro das regras certas, pois eu sou árbitra oficial de futsal pela federção norte-riograndense e achei que conhecia todas as regras ou se ele pedisse desculpas assumindo que ele fez a falta. Ele se negava a fazer uma das opções, implorando pra voltar para o jogo, mas não deixei. Quando cheguei nessa semi-final, marquei um penalti que foi muito discutido pelo público, mas que fora a torcida adversaria, mesarios e o público em geral concordaram que o penalti aconteceu. Antes do jogo terminar, essa mesma criança que estava assistindo ao jogo, se aproximou de mim e disse:
- Professora?
- Oi? - falei sem perder o foco no jogo.
- É porque - começou a falar meio envergonhado e com a cabeça baixa - eu queria pedir desculpas por aquele dia que eu gritei com a senhora. Eu estava de cabeça quente e não queria perder o jogo. Mas, a senhora apita muito bem.
Não tive como conter o sorriso, virei para ele e disse apenas:
- Obrigada. Estou orgulhosa por sua sinceridade.
Ele sorriu e saiu correndo para continuar a torcer pelo jogo.
Durante o campeonato, também coloquei os meus alunos para participar. E apesar de não terem alcançado grandes resultados na competição, se demonstraram mais empolgados ainda para vencerem as próximas que surgissem. Outras competições que aconteciam na comunidade e eu não sabia por serem realizados em datas que eu não podia comparecer, eles se inscreviam e voltavam sempre muito empolgados para me contar de suas participações. Em uma delas, as crianças alcançaram o segundo lugar e uma delas veio me dizer:
- Professora, eu queria ganhar em primeiro lugar pra trazer o troféu pra senhora. Mas tá bom o segundo lugar né?
Eu sempre reforçava a opinião de que quem jogava limpo e dava o seu melhor esforço, sempre já era vitorioso. Que cada vez mais que praticassem o esporte, mais se aperfeiçoariam pra novas vitórias. Mas, na verdade, o que eu queria que eles soubessem é que a escolha deles em está jogando em vez de entrando em mundos negativos, já era a maior vitória para a vida deles e o meu maior orgulho. (...)
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