Não se intitule por palavras, use-as como mapa. Navegue. E faça o que você é, ser cada vez mais.

sábado, 24 de setembro de 2011

Por que será que gosto tanto de futebol?


   Tive tantas e diferentes vivências em minha infância... Eu poderia ter buscado tantos caminhos!
   Pude experienciar muitas brincadeiras desde “casinha” até “balanceio com pneu de carro”. E como é bom brincar! Eu morava longe da cidade, num espaço como se fosse um sitio e não tinha crianças morando próximas a minha casa. Apenas uma fábrica de mel e a casa dos meus primos. Então, eu acordava já me programando para as mais diversas viagens imaginativas onde eu podia ser o que eu quisesse. Um dia eu era médica e cuidava de todo mundo que aparecesse no meu caminho, ou professora e ensinava aos cantos e recantos qualquer que fosse a matéria importante do dia (talvez como subir em árvores e roubar caju ou de onde vinham certas coisas que eu mesma tinha a curiosidade e assim criava respostas mirabolantes). Depois, eu já era cantora e fazia shows para os ursinhos de pelúcia ou apresentadora de programa e dava as noticias de como estava o mundo em lugares que eu nem sabia se realmente existiam, mas o mundo sempre estava belo... Outros dias, eu invadia "as mais perigosas florestas do mundo" em busca de tesouros escondidos! (que eu escondia). Lutava contra "monstros e animais selvagens"! (destruindo os ursinhos de pelúcia da minha irmã). Era Power ranger rósea, zorro, uma das meninas super poderosas, pintora famosa, estilista de grandes grifes, policial em meio à periculosidade das cidades, ninja, capoeirista, escritora, apicultora, massagista, psicóloga, lutadora de boxe, jogadora de vôlei, espiã da cia, cientista, motorista de ônibus, ciclista, protetora dos animais e muuuitas outras personagens. Atuava até como doente em estado de emergência, quando minha mãe insistia em querer me levar para fazer compras ou visitar as amigas dela. Mas o que eu mais gostava de imaginar era aquele estádio lotado, muita gente assistindo, um friozinho na barriga, e eu entrando para uma partida de futebol! Como era mágico! Eu esquecia que era apenas um quintal, que eu estava só... e me entregava ao momento de iniciar a partida. De repente, os troncos das árvores eram duas traves a minha espera, eu driblava cocos, pedras maiores, cabos de vassoura, cadeiras velhas e tudo mais que era guardado ali. Meu cachorro latia doido pra jogar também, mas ele estragaria a bola como já tinha feito nas minhas primeiras tentativas... Eu passaria o dia inteiro ali se possível, só jogando, elaborando jogadas e fantasiando gols inéditos! Pararia para os comerciais ao tomar um copo de água ou ir ao banheiro. Mas quase sempre minha mãe “apitava” para o centro do campo avisando que estava na hora de ir a escola.
  Prontas, lá estávamos eu e minha mãe esperando na Avenida “o alto da estrela” pelo alternativo que nos levasse até a cidade (Tempos bons onde a passagem custava apenas 50 centavos e criança ia de graça). E assim, a tarde começava com lições em aula e muitas outras brincadeiras com a turma. No intervalo, brincávamos de pega-pega, esconde-esconde, menino pegar menina, pega-cola, dono da rua ou qualquer outra brincadeira que nos levasse a correr e cair muito. Mas ao final, algumas meninas sempre saiam para brincar de boneca e eu ia jogar futebol de tampinha ou de garrafa com os meninos no pátil. Quando liberados da aula, como minha mãe sempre demorava pra me buscar, eu ficava na casa da diretora que ficava vizinha a escola. Ela tinha uma biblioteca gigaaante e um netinho chamado Júnior (nunca mais o vi, não lembro mais do seu rosto, mas era magro e branquinho. Perdia pra mim na quebra de braço), com quem eu adorava jogar totó ou ler e contar histórias.
  À noite, já em casa, eu fugia dos banhos. Mas quando já me dava por vencida, levava para o banheiro os meus bonequinhos pequenos dentro de um balde e passava muito tempo por lá. Depois, já limpinha, com as pontas do dedo enrugadas e congelando, eu continuava a brincar. Eram bonecos que eu ganhava no kinderovo, nos ovos de páscoa ou naqueles saquinhos de pipoca e bala. Eu montava uma cidade inteira, com camas feitas de caixa de fósforo, guarda-roupas de caixa de pasta de dente, ônibus com as panelas da minha mãe, e é claro... campinhos de futebol com traves do joguinho de “futebol de botão” dos meus primos e bolinhas de gude. Não importa qual história eu imaginasse... Sempre tinha um mocinho e uma mocinha que terminavam juntos. Ora ele salvando ela e sendo um grande jogador, ora ela jogando muito e conquistando a admiração dele. Meus pais não entendiam nada, bolavam de rir, diziam que eu parecia uma doida brincando sozinha...
   O final de semana chegava. A casa de algumas amigas virava meu destino. Ia brincar de casinha e jogar vôlei, dominó, banco imobiliário, cantar no karaokê ou outras brincadeiras que todas quisessem. Depois, seguia para a casa dos meus primos jogar vídeo game e no finalzinho da tarde... Muuuito futebol! Eles já eram grandinhos e eu acabava saindo muitas vezes com o dedão do pé inchado, ou a perna machucada e aquelas velhas manchinhas roxas. Sem contar que minha mãe só faltava morrer do coração quando olhava a cor dos meus pés entrando de mansinho em casa pra correr pro banheiro...
  Quando nos mudamos... Crianças na rua *---* Eu tinha amigos a hora que eu quisesse! Formávamos um grande grupo. Depois da escola, almoçava bem depressa para começar a brincar de casinha. Eu gostava de ser a “narradora”. Fantasiava um cenário e os acontecimentos clímax. Não gostava de ter “filhos”, pois as bonecas precisavam de cuidados delicados e eu queria era ação com maiores emoções. Depois do jantar, éramos os donos da rua. Minha prima pequena vigiava se meu pai estava vindo, enquanto eu me juntava aos meninos para uma partida de futebol. Sandálias a posto de traves, bola de leite ao chão, as outras meninas sentadas na calçada com as bonecas no colo para torcer por mim e assim, tudo começava!
   Dia de futebol na tv... Chorava ou vibrava muito vendo o Flamengo jogando, sem entender o que realmente tudo aquilo representava para o campo financeiro e social. Eu apenas me imaginava lá e como devia ser indescritível viver aqueles momentos, como seria excitante conquistar um título ou terrivelmente doloroso perder depois de tantos jogos conquistados e com tanta gente esperando o melhor de nós... Eu pedia ao Papai do céu que vencesse o melhor, pois sabia que em todo time tinha filhos Dele. Mas quando passava um adversário xingando, “olha aí Papai... Ele ta xingando. Merece mesmo?”. Meu pai era meu companheiro de emoções da telinha e as vezes aparecia no quintal pra me ensinar uma ou outra jogada. Eu não sabia que estava sonhando naqueles momentos. Mas sonhava alto, tão alto que a cada gol do Mengão, minha garganta explodia e eu ia a loucura correndo em volta da casa e gritando pra todo mundo “é campeãoooo!!!”. Viver pessoalmente momentos como aqueles era o que eu esperava, inconscientemente, todos os dias.

Esse tempo por aqui

“Quando comecei a escrever, que desejava eu atingir? Queria escrever alguma coisa que fosse tranqüila e sem modas, alguma coisa como a lembrança de um alto monumento que parece mais alto porque é lembrança. Mas queria, de passagem, ter realmente tocado no monumento. Sinceramente não sei o que simbolizava para mim a palavra monumento. E terminei escrevendo coisas inteiramente diferentes.”
  “Não sei mais escrever, perdi o jeito. Mas já vi muita coisa no mundo. Uma delas, e não das menos dolorosas, é ter visto bocas se abrirem para dizer ou talvez apenas balbuciar, e simplesmente não conseguirem. Então eu quereria às vezes dizer o que elas não puderam falar. Não sei mais escrever, porém o fato literário tornou-se aos poucos tão desimportante para mim que não saber escrever talvez seja exatamente o que me salvará da literatura.

   "Sou uma pessoa que tem um coração que por vezes percebe, sou uma pessoa que pretendeu pôr em palavras um mundo ininteligível e um mundo impalpável. Sobretudo uma pessoa cujo coração bate de alegria levíssima quando consegue em uma frase dizer alguma coisa sobre a vida humana ou animal.”
  O que é que se tornou importante para mim? No entanto, o que quer que seja, é através da literatura que poderá talvez se manifestar.”
  “Até hoje eu por assim dizer não sabia que se pode não escrever. Gradualmente, gradualmente até que de repente a descoberta tímida: quem sabe, também eu já poderia não escrever. Como é infinitamente mais ambicioso. É quase inalcançável”. (Clarice Lispector).
-
  Assim eu escrevo. Eu escrevo simplesmente por não saber ficar sem escrever,
por me surpreender ao tropessar nos acontecimentos e derrubá-los aqui como se fosse uma caixinha de 'achados e perdidos', como se alguém pudesse achar algum significado para tudo isso junto e abandonado aqui.
Bom proveito.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Qual é o seu melhor?

E é assim.

E foi assim...
Os livros caindo dos meus braços,
o estresse subindo ao ver o ônibus dando partida,
uma pausa para tentar controlar toda aquela sensação de raiva e frustação.
Mas antes que eu pudesse planejar minhas próximas ações, lá estava ele apanhando meus livros e sorrindo descompromissadamente para mim. Eu fraquejei ao tentar falar algo.
- Vaamos. Eu também vou ter que esperar o próximo circular. Pelo que vejo vai chegar atrasada né? – ele continuava sorrindo, como se aquela situação já fosse comum para ele.
- Éee. – Não sei o motivo. Mas fiquei tão embaraçada com tudo aquilo que fugia de olhar diretamente para ele. Então, recolhi meus livros gentilmente das mãos dele, agradeci com um gesto mudo e um sorriso leve e me sentei na calçada. Ele pareceu não saber o que fazer. Andou um pouco para frente, mas titubeou e voltou para próximo de mim. O que me deixou estranhamente feliz.
- Eu não quero te incomodar, mas acho que o seu relógio está quase caindo...
E eu achando que ele queria conversar, me conhecer... Só estava mais uma vez sendo educado e me ajudando. Que vergonha! E acabei pensando alto:
- Vaaaleu! Ainda bem que tem pessoas gentis ainda no mundo. O que será que vou perder quando você sair de perto de mim?
Quando percebi o duplo sentido que aquela frase poderia ter, desviei meu olhar como se não esperasse mais a resposta.
- Bem... Se você quiser, posso continuar perto... Ao menos até você se sentir segura.
E é assim...


Amor existe e tem várias formas de se amar: Amizade verdadeira é tão rara como conseguir chegar na hora certa para pegar o ônibus ou se atrasar no dia certo.

sábado, 17 de setembro de 2011