As necessidades deles eram variadas. Alguns precisavam só de um espaço para descontrair, alguns por amar jogar bola, outros precisavam de um espaço pra fugir de casa e das dificuldades lá encontradas. E alguns, iam por lá, a procura de atenção ou de comida. Com alguns meses de trabalho já conquistados e com as desconfianças sobre minha atuação desfeitas, comecei a ser convidada a ajudar em outros projetos e atividades e assim, conheci mais e mais dos meus alunos e de suas famílias e, principalmente, conheci mais do meu Deus maravilhoso. Algumas vezes, eu chegava com meus pequenos problemas de adulta iniciante como enfrentar os desafios de vida acadêmica universitária, vencer preguiça e receios pessoais, ganhar liberdade de chegar a noite em casa e sair pra onde eu quiser, aprender a organizar minha vida financeira e por aí vai... Aí, todas as segundas, tínhamos encontros devocionais com toda a equipe e com a presença de alguns palestrantes convidados. Meu Deus! Como eu me sentia ridícula diante das minhas preocupações! Como minha realidade era muito boa diante de tantas outras citadas! Como minhas atitudes eram ingênuas diante de um mundo que eu não sabia que existia de verdade! Deus me convidada a conhecer o mundo que eu estava pra saber me defender e valorizar a cada instante a vida que Ele me permitiu ter para através do poder Dele atuar ajudando outras vidas.
Quem não era da comunidade e sabia do meu trabalho, me questionava se eu não tinha medo. Eu respondia que não. E sinceramente, de todo meu coração, nunca tive medo. Não estou falando pra dizer que sou corajosa e não tenho medo de nada. Claro que não! Tenho muitos medos sim! E não sei explicar como o possível medo que eu deveria sentir não existia. Apenas confiava que essa coragem inexplicável que eu tinha era fruto do amor do meu Deus.
Ganhamos um campo de areia dentro de uma unidade de apoio ao menor. Foi um presentão! Pude controlar a entrada e saída dos participantes das oficinas e assegurar um lugar protegido para as práticas e para a hora do lanche. Fiz carteirinhas de identificação e conseguimos mais materiais que podiam ser guardados lá mesmo. Assim, acabaram-se os meses de carregar garrafões e materiais, fazendo com que as aulas se iniciassem mais cedo e tivéssemos mais momentos proveitosos. Como a utilização de vocabulários desrespeitosos estava muito constante, aderi a regra de que durante os jogos, quem insultassem o colega ou agredisse fisicamente, dava o direito de uma cobrança de pênalti para a equipe adversária e um cartão amarelo. E se ocorresse fora de um momento de jogo, recebia o cartão mesmo assim. Acúmulos de cartões levariam a punições como expulsão do jogo e da oficina, temporariamente, ou dependendo do nível da agressão, definitivamente. Os resultados foram muito positivos! A diminuição de palavrões ocorreu de forma significativa, os pedidos de desculpas e até de advertência entre os próprios colegas quanto a manterem o respeito foram aplicados. Além de discussões abertas e divertidas sobre o que é palavrão e porque usá-los. Como meus grupos de alunos eram consideravelmente grandes, com cerca de no máximo 30 alunos por turma, eu não conseguia ouvir todos ao mesmo tempo. Situações conflitosas sobre um ou outro ter falado palavrão e eu não ter ouvido, geravam rodas de conversa sobre integridade física e moral, sinceridade e respeito com o outro. Com 8 meses de atuação nos caminhos do sol, percebi que os adolescentes já não apareciam mais nem drogados nem bêbados em minhas práticas, que muitas conversas e palavras eram evitadas em respeito a minha presença,a presença das crianças,das meninas e ao local educacional como um todo. Um laço de amizade e fraternidade estava sendo formado sem eles perceberem. Tanto as crianças como os adolescentes me tratavam como tratam seus amigos queridos ou familiares queridos, demonstravam carinho e queriam me contar de seus dias e seus feitos, queriam saber de mim e das minhas opiniões sobre tudo. Eu me senti ainda mais comprometida com a responsabilidade da minha atuação e ao mesmo tempo, mais amada. As rodas de conversa com Deus eram cada vez mais cobradas por eles, diferente do inicio que as achavam chatas e desnecessárias e não se abriam, e começaram a fazer pedidos e comentários. Eu permitia as brincadeiras que algumas vezes até auxiliavam na quebra da vergonha em se expressar. E a felicidade deles em me ver estava além dos meus sentimentos profissionais. Eu era mulher, branquinha, de classe média- alta, vinda de uma realidade onde os problemas eram mais disfarçados e utilizando linguagens diferentes. Pra quem vê de fora, esses pontos deveriam ter me feito vacilar em minha atuação, não? Pois acho que foram os pontos que mais me estimularam. Agradeço a confiança e oportunidade que muitos dos meus colegas de trabalho me concederam. Eu já me sentia da comunidade, peguei carinho até pelo ônibus que me levava até o projeto e me orgulhava por ter conseguido este espaço com a benção de Deus. Realizamos passeios na praia e o comportamento foi exemplar de uma forma significativamente maravilhosa. Eles eram crianças sendo crianças e adolescentes sendo adolescentes, o que nos seus cotidianos as cobranças da vida não permitiam-lhes ser. (...)

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