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segunda-feira, 27 de maio de 2013

Contos da borboletinha – o início

       Morávamos num jardim maravilhoso! Eu era uma lagartinha muito inocente e acreditava que aquele pequeno jardim era o mundo todo! Morávamos eu, meus pais e minha irmã Borboliana. Minha irmã era mais velha que eu e já havia se tornado uma linda borboleta. Na verdade, a mais linda de todo aquele jardim! Eu ficava admirando-a a voar entre as flores! Suas asas tão coloridas, seu sorriso contagiante... Tudo o que eu queria era viver logo aquela experiência linda de voar! Iria fazer novas amizades, conhecer diversos perfumes e experimentar muitos sabores e cores! Mas, mesmo sem poder voar ainda, eu era feliz porque eu vivia num lugar ótimo para jogar bola e se rastejar e amava meus amiguinhos. Sempre organizava as brincadeiras com a minha turminha. A primavera sempre era muito linda e o Outono me permitia passear por terras macias e úmidas. Eu podia percorrer livremente por todos os lugares e todos me conheciam e cuidavam de mim. Até que um dia meu pai resolveu se mudar. O inverso se aproximara. O radio avisava que as tempestades estavam chegando em nosso jardim e essa temporada não seria fácil. Se continuássemos ali, faltaria comida e lugar para viver. Eu estava com medo. Não queria sair do meu mundinho lindo. Mas papai falou que era pro nosso bem e segurou-me firme. Estava na hora de partir.
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      Carregada pelo meu papai e com mamãe e a Borboliana voando a nossa volta, voamos dias por diversos lugares desconhecidos e fugindo de predadores. Eu era proibida de falar com qualquer estranho quando parávamos pra comer ou dormir. Não agüentava mais ficar sendo carregada de um lado pro outro. Era muito ruim depender de um deles pra seguir viagem. E quando eu via algo legal, não podia nem me aproximar. Até que chegamos num novo jardim. Papai me deixou com mamãe enquanto falava com o sindico do jardim. Eu aproveitei pra observar o pouco que dava pra ver Dalí, das asas da minha mãe, sem poder sair. O lugar era muito barulhento. Tinha insetos que me davam medo e algumas partes do chão estavam muito sujas. Eu não queria ficar ali, mas meus pais falaram que por enquanto era o que tínhamos. Que não agüentavam mais viajar e eu já já precisaria repousar por um período com segurança. Questionei nossa decisão de ficar ali porque achei o lugar inseguro e em troca, ganhei a proibição de sair de casa sem eles.
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     O inverno chegou por lá também, mas bem tranquilo e meus pais me colocaram numa escolinha perto de nossa casa. Eu não queria fazer novos amigos. Queria os meus amigos antigos. Isolei-me e reclamava muito de ter que ir rastejando pela terra suja daquele lugar. Mas com o passar do tempo, conheci as joaninhas jojo e lilo e o labradorzinho na escola que tiveram muita paciência com minhas chatices e sempre mostravam gostar da minha presença. E entrei no time de futebol feminino do jardim. Eles me convidaram pra brincar e sempre me ajudavam a passear pelos lugares que eu não suportava rastejar. Descobri que eles eram sim muito legais e comecei a pensar que talvez eu pudesse gostar Dalí. Mas meus pais me proibiam de ir muito longe, de falar com adultos estranhos e de chegar a noite em casa. Eu me sentia muito presa. E os meus amigos, apesar de super legais, não podiam sempre me visitar e tinham outros amigos pra dar atenção. Comecei a me sentir muito só. Até que um dia o baratoboy, uma barata macho que se apaixonou por mim, falou que para ele não importava se eu era feia e pequenininha. Eu falei que era muito criança pra me apaixonar e ele me chamou de mola de caneta gosmenta e que eu nunca arranjaria algo melhor que ele. Pela primeira vez, parei na frente de um orvalho e procurei ver minha imagem. Eu nunca tinha me preocupado com isso. Sempre fui tão amada por meus papais que nunca pensei que eu pudesse ser feia. E... “Nossa! Eu sou muito feia!”. Desde então, eu evitava olhar pra mim. Gostava de andar e andar sem motivos. Meus amigos começaram a crescer e ficavam cada vez mais lindos. A Lilo que eu considero um anjinho que cuidou de mim nessa fase, crescera, estava seguindo seu sonho de ser jornalista e tinha feito novas amizades. A jojo que era minha melhor amiga vinha me visitar de vez enquanto, mas agora estudava em outra escola, se apegou as novas amizades. O labradorzinho era um fofo e passou um tempo muito apegado a mim, mas depois chegou avisando que precisava partir. E se foi. Eu comecei a me excluir de todos os amigos criando autoproteções e limites de apego, eles nem percebiam. Estava cansada de tantas despedidas, de ver todo mundo mudando por fora e eu ainda a mesma pequena e feia. Achava-me estranha, fraca, incapaz de realizar grandes coisas e de ser amada.
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    De repente, um dia mais frio inundou meu corpo de arrepios e eu saí de casa procurando algumas folhas pra me cobrir. Meus pais se orgulharam muito do que estavam vendo. O meu momento tinha chegado!

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